O primeiro carro fabricado no Brasil

O DKW–VEMAG, desconsiderando o Romi – Isetta, foi o primeiro carro fabricado no Brasil. Ele, que era um médio pequeno, foi único em sua categoria por muito tempo. Entre os pequenos tínhamos o Fusca e a dupla Dauphine/Gordini. Entre os médios, que aqui eram considerados grandes, tínhamos o Aero Willys, o Simca Chambord e o FNM JK. O DKW corria sozinho na faixa dos médios pequenos.

Mas ele tinha um problema que fazia com que muitos o odiassem: seu motor era a dois tempos. Muita gente nem sabia bem o que era isso, mas aquela marcha lenta “pipocante”, aquela fumacinha branca saindo sempre pelo cano de descarga com seu cheiro característico, a falta de torque em baixas rotações, a falta de freio motor e o barulho excessivo em altas rotações eram características inerentes aos motores a dois tempos que faziam muitos não gostarem do DKW.

Eu era um fã absoluto e ter um deles foi meu sonho de consumo durante o tempo em que tive um Gordini. Tive dois DKW. Um 1962 que comprei usado quando chegou a hora de reformar o motor do Gordini pela quarta vez. O outro foi um 1966, este já com o misturador automático de óleo o Lubrimat, um grande avanço.

Os motores a dois tempos são muito simples, pois não têm válvulas. A admissão da mistura ar combustível e a exaustão dos gases da combustão se fazem através das janelas que existem no próprio cilindro e que são abertas e fechadas pelo próprio movimento dos pistões. Essas janelas são moldadas no próprio bloco no momento de sua fundição e tem o acabamento característico das peças feitas em ferro fundido. Isto fazia com que não houvesse muita uniformidade nas potências dos motores montados, mas fazia também que fosse muito fácil melhora-las, bastava fazer um caprichado retrabalho de acabamento das janelas. A potência nominal do DKW era de 50 CV, mas um bom preparador conseguia tirar 70 CV sem muita dificuldade e os carros de competição da equipe oficial da fábrica chegaram a ultrapassar os 100 Cv.

Como ia dizendo, havia DKW’s mais e menos potentes e o meu, infelizmente, era dos paralíticos. Isso era meio loteria, a gente só descobria depois de ter comprado o carro. A essa altura da minha vida eu já estava casado, já tinha uma filha e as prioridades já eram outras. O retrabalho das janelas foi ficando para depois e acabou nunca saindo até porque começaram a sair as notícias sobre o “futuro” incerto da Vemag e sobre o lançamento do projeto M da Ford que veio a ser o Corcel e eu achei que não valia mais a pena investir naquele carro.

Mas em 1969 ainda fiz uma longa viagem com ele. Fui até Brasília passando, obviamente por São Paulo, triângulo mineiro, Goiânia, e depois, Belo Horizonte, Ouro Preto, Congonhas, Juiz de Fora, Rio de Janeiro e de volta a Porto Alegre.

Na volta, entre Rio e São Paulo, pela Via Dutra, eu vinha que vinha. A Dutra tem aquelas longas retas em descida e depois em subida, uma depois da outra, parece uma montanha russa. Pois eu aproveitava as descidas para embalar, chegava a 130 km/h para conseguir chegar ao topo da subida seguinte a 80. Era dura a vida de um automobilista naquela época, isto que o DKW “andava” muito mais que Fuscas e Gordinis.

Numa daquelas descidas, lá embaixo, fui parado pela polícia rodoviária. Veio o policial, todo pomposo, cronômetro na mão. Naquele tempo ainda não usavam o radar. A polícia aproveitava trechos de boa visibilidade, marcava dois pontos na estrada, media o tempo que o carro levava para percorrer aquela distância e calculava a sua velocidade. Também era dura a vida dos policiais. Pois ele chegou e perguntou, todo arrogante:

– O Sr. sabe a que velocidade o Sr. vinha?

– 130, disse eu.

– 117, disse ele.

– Não, eu vinha a 130 retruquei pensando, a multa é a mesma, esse cara não vai me desmoralizar.

– 117, disse ele, o cronômetro não mente.

– Porcaria de carro! Disse eu batendo com ambas as mãos no volante. Nem em descida esta m… anda, já viu coisa igual?

Começamos a rir e ele não me multou, ficou só numa liçãozinha de moral. Eram outros tempos e não havia ainda esta sanha arrecadatória de hoje.

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Uma resposta para “O primeiro carro fabricado no Brasil”

  1. […] nosso colunista Paulo Torelly já escreveu aqui no AUTO H sobre a Vemag DKW no texto “O primeiro carro fabricado no Brasil“. E ele conta uma história pra lá de engraçada no post. clique aqui e confira. […]

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